Pensar a gestão democrática da educação pública significa reconhecer quea escola é, antes de tudo, um espaço coletivo, constituído por sujeitosdiversos, com histórias, experiências, expectativas, valores e diferentesformas de compreender e vivenciar o cotidiano. Nesse contexto, a escolhademocrática de educadores e educadoras para o exercício da função de gestãoescolar representa um importante instrumento de participação e de construção dademocracia no interior das instituições educacionais.
Entretanto, assumir a direção ou a gestão de uma escola implica enfrentardesafios que ultrapassam os conhecimentos técnicos, administrativos,pedagógicos e acadêmicos. A gestão escolar envolve, de maneira intensa,relações humanas, conflitos, afetos, responsabilidades, tomadas de decisão emediação de interesses muitas vezes divergentes. Para aqueles e aquelas quevivenciam sua primeira experiência como gestores, tais desafios podem adquiriruma dimensão ainda maior. A experiência cotidiana tem revelado que um númerosignificativo de dirigentes escolares encontra dificuldades para compreender emanejar os fenômenos que constituem as relações interpessoais e os processosgrupais presentes na instituição. Conflitos entre profissionais, dificuldadesde comunicação, tensões nas relações de trabalho, resistência às mudanças,sentimentos de isolamento e sobrecarga são situações que fazem parte darealidade de muitas escolas. Ao mesmotempo, identifica-se uma demanda crescente por espaços de escuta, acolhimento epartilha nos quais os gestores possam falar sobre suas experiências, reconhecersuas dificuldades e compartilhar estratégias construídas ao longo de suastrajetórias. Afinal, aqueles e aquelas que assumem responsabilidades pelaorganização e pelo funcionamento da escola também ocupam o lugar de quem cuida.
Cuidar, entretanto, não significa apenas administrar recursos, cumprirnormas, organizar horários ou responder às demandas institucionais. Cuidarsignifica também estabelecer relações, escutar, acolher, mediar conflitos,construir vínculos e produzir condições para que o trabalho educativo aconteçade maneira democrática e humanizada. A escola é um território de encontros.Nela circulam diferentes histórias de vida, culturas, perspectivas, desejos,frustrações, afetos e conflitos. Por isso, sentimentos e emoções fazem parte docotidiano institucional e precisam encontrar espaços adequados para seremreconhecidos, acolhidos e elaborados. Quando isso não ocorre, podem setransformar em sofrimento, desgaste das relações, adoecimento e comprometimentoda qualidade de vida no trabalho.
É nesse cenário que se faz necessário práticas permanentes de cuidado de quem cuida: espaços deconvivência, escuta, acolhimento, diálogo e formação continuada para gestores egestoras escolares. Isso significa considerar que a gestão democrática requernão apenas competência técnica, mas também habilidades sociais, relacionais,emocionais e políticas. Cuidar de quem cuida, portanto, significa criarcondições para que aqueles que exercem a gestão possam refletir sobre sua própriaprática, compartilhar experiências, elaborar conflitos e construircoletivamente novas possibilidades de intervenção no cotidiano escolar.
A gestão de uma instituição educacional não pode ser compreendidaexclusivamente como uma atividade administrativa. A escola constitui umcoletivo humano e, como tal, está permanentemente atravessada por relações depoder, processos de identificação, conflitos, alianças, afetos, expectativas edisputas de diferentes naturezas. O gestor ou a gestora encontra-sefrequentemente no centro dessas relações. É chamado a tomar decisões, mediarconflitos, responder às demandas de diferentes segmentos da comunidade escolare, simultaneamente, preservar vínculos e construir condições para o trabalhocoletivo. Essa posição pode produzir sentimentos contraditórios. Ao mesmo tempoem que a gestão pode representar uma oportunidade de realização profissional,participação política e transformação da realidade escolar, também pode gerarsolidão, insegurança, ansiedade, frustração e sensação de impotência diante deproblemas complexos.
Nesse sentido, a formação permanente dos gestores precisa incorporar umadimensão que muitas vezes é secundarizada: o cuidado com aquele que exerce afunção de cuidar.
A formação para a gestão não deve limitar-se à transmissão de conteúdo.Ela precisa constituir-se como processo permanente de reflexão sobre a prática.Trata-se de compreender a formação como movimento de construção coletiva deconhecimentos, no qual experiência e teoria dialogam permanentemente. Essaperspectiva aproxima-se da concepção freiriana de práxis: uma ação que sealimenta da reflexão crítica e que, simultaneamente, transforma a realidade eos próprios sujeitos envolvidos no processo.
Uma política de cuidado com gestores escolares deveria proporcionar umespaço permanente de convivência, escuta, acolhimento, partilha e cuidado paraa formação continuada de gestores e gestoras escolares, com ênfase nosprocessos grupais, nas relações interpessoais e nos desafios da convivência nacomunidade escolar. Favorecer a troca de experiências sobre a gestão da escola;promover a reflexão crítica sobre as práticas de gestão e os desafiosdecorrentes das relações interpessoais; construir coletivamente estratégiaspara o enfrentamento e a mediação de conflitos; e oferecer elementosteórico-práticos que contribuam para uma compreensão ampliada das relaçõeshumanas nos diferentes contextos institucionais.
Trata-se de organizar práticas coletivas que possibilitem a reflexãosobre os fenômenos grupais e os processos que emergem da dinâmica dasinstituições, resgatando a ética e a cidadania como dimensões fundamentais daatuação profissional. Outro aspecto fundamental é a experimentação demetodologias participativas que possam posteriormente ser utilizadas pelospróprios gestores na condução de grupos de docentes e demais segmentos dacomunidade escolar. Na condução dessas práticas é fundamental o acolhimento dasdúvidas, angústias e dificuldades vivenciadas no exercício cotidiano da gestão,valorizando os sentimentos e as emoções como dimensões constitutivas daexperiência humana. O diálogo entre os participantes deverá favorecer aconstrução de estratégias para lidar com situações-problema, conflitos edesafios relacionais.
A experiência coletiva poderá resultar também na elaboração de documentose orientações construídos pelos próprios gestores, reunindo conhecimentosproduzidos a partir de suas experiências concretas. Dessa forma, o grupo deixade ser apenas espaço de formação para tornar-se também espaço de produção deconhecimento e de fortalecimento da autonomia profissional. Por fim, consolidaruma política institucional que valoriza osencontros marcados pela dialogicidade entre gestores e gestoras, fortalecendo oprotagonismo dos mesmos e ampliando sua capacidade coletiva de enfrentar osdesafios cotidianos da escola.
Uma metodologia participativa para a gestão de coletivos
A realização desses objetivos exige uma metodologia coerente com osprincípios de uma escola democrática, que reconheça a diversidade dos sujeitosenvolvidos no processo educativo. Metodologia, nessa perspectiva, não ésimplesmente um conjunto de técnicas. É um modo de compreender e intervir narealidade. Significa estabelecer uma relação permanente entre pensamento eação, teoria e prática, reflexão e intervenção. A formação deveria, portanto, adotaruma perspectiva de práxis, entendida como movimento contínuo de reflexãocrítica sobre a prática e de transformação da própria prática a partir dosconhecimentos produzidos coletivamente. Parte-se do princípio de que cadapessoa constrói, ao longo de sua trajetória, um conjunto de conhecimentos eexperiências que constitui uma importante bagagem para o processo formativo.Esses saberes são diferentes, mas não hierarquicamente superiores ouinferiores. Sua diversidade constitui uma riqueza que precisa sercompartilhada. Nessa perspectiva, formadores e gestores são compreendidos comosujeitos que possuem saberes diferentes e que se tornam parceiros na construçãodo conhecimento. A interação, a comunicação e a troca de experiências ocupamlugar central no processo.
Trabalhar com grupos significa, ainda, reconhecer que a constituição e amanutenção dos vínculos são desafios permanentes. É necessário desenvolver umapostura de observação e leitura contínua das relações que se estabelecem nointerior do coletivo, compreendendo que cada comportamento individual tambémestá relacionado à dinâmica grupal. O planejamento das atividades constitui umareferência importante para a condução do processo, mas deve manter-sesuficientemente flexível para acolher as mudanças produzidas pelo própriomovimento do grupo e pelas transformações da realidade. Outro princípiofundamental é o registro da experiência. Registrar significa produzir memória,preservar histórias e transformar a experiência em conhecimento. Adocumentação, nesse sentido, também constitui uma ação educativa etransformadora. A avaliação, por sua vez, é compreendida como responsabilidadecoletiva. Mais do que verificar resultados, avaliar significa aprender com aexperiência, identificar erros e acertos, rever caminhos e construir novaspossibilidades de intervenção.
Entre as estratégias metodológicas propostas, destacam-se as oficinascomo dispositivos de intervenção pedagógica e psicossocial. A oficina pode sercompreendida como um espaço no qual se produz algo por meio da ação coletiva.Mais do que um momento de transmissão de conhecimentos, constitui-se como lugarde experimentação, criação, reflexão e transformação. Se, para o marceneiro, amadeira é a matéria que será transformada em um objeto, no trabalho grupal amatéria-prima é constituída pelas histórias, experiências, valores, sentimentose conhecimentos de cada participante. É a partir do compartilhamento dessasexperiências que o grupo pode produzir novas compreensões sobre sua realidade.
A oficina articula racionalidade e afetividade, reflexão e experiência,conhecimento e sentimento. Seu propósito é possibilitar que os participantesreflitam sobre valores, crenças, preconceitos, papéis sociais e formas derelacionamento que foram histórica e socialmente construídos. Durante algumashoras, o grupo pode transformar-se em um espaço protegido para experimentaroutras formas de comunicação, relacionamento e convivência. Pode tornar-se umlaboratório social no qual seja possível questionar padrões estabelecidos,relativizar certezas e construir novas formas de compreender a si mesmo, ooutro e a instituição. Essa dimensão é particularmente importante no campo dagestão escolar, onde os conflitos nem sempre decorrem apenas de problemasobjetivos. Muitas vezes estão relacionados a percepções, expectativas,sentimentos, experiências anteriores e formas distintas de interpretardeterminadas situações. As oficinas possibilitam, portanto, trabalharsimultaneamente as dimensões pedagógica, social, institucional eafetivo-emocional presentes na experiência da gestão.
O grupo como espaço de aprendizagem
O grupo constitui uma dimensão central da proposta. É no encontro com ooutro que cada participante pode reconhecer aspectos de sua própriaexperiência, confrontar perspectivas e ampliar sua capacidade de compreenderdeterminadas situações. A construção do sentimento de pertencimento éfundamental para que o grupo possa enfrentar o desafio de rever valores,atitudes e normas anteriormente naturalizados. A contribuição de Kurt Lewinpara a compreensão dos processos grupais permanece relevante nesse sentido,especialmente no que diz respeito à dinâmica das relações e à influência dogrupo sobre os comportamentos individuais. O grupo de formação não deve sercompreendido como simples reunião de pessoas. Trata-se de um espaço social empermanente construção, no qual os participantes produzem vínculos, negociamsentidos, estabelecem regras, enfrentam conflitos e constroem formas decooperação. Por isso, a formação de gestores precisa criar condições para queeles não apenas aprendam sobre gestão, mas também vivenciem processos de gestãocoletiva. A experiência do grupo torna-se, assim, parte do próprio conteúdoformativo. Ao vivenciar uma metodologia participativa, o gestor pode ampliarsua compreensão sobre como organizar reuniões, conduzir diálogos, mediarconflitos, estimular a participação e construir decisões coletivas. Ametodologia deixa de ser apenas conteúdo e transforma-se em experiência.
O projeto não estabelece a teoria como ponto de partida obrigatório nempretende transformar os encontros em aulas tradicionais. Os conhecimentosteóricos são compreendidos como instrumentos que podem iluminar a experiência econtribuir para sua problematização. Entre um encontro e outro, poderão sersugeridas leituras, filmes, textos, relatos de experiências ou outros materiaisque contribuam para aprofundar as questões discutidas pelo coletivo. Tambémpoderão ser experimentadas estratégias e dispositivos de gestão, permitindo queos participantes testem novas formas de intervenção e posteriormentecompartilhem os resultados com o grupo. Essa perspectiva valoriza aaprendizagem pela experiência e reconhece que os próprios gestores sãoprodutores de conhecimento sobre a escola. Seus relatos, dúvidas, erros,acertos e descobertas constituem uma fonte importante para a construção desaberes sobre gestão democrática e processos grupais.
A avaliação do processo será contínua, realizada ao longo da experiênciaindividual e coletiva. Poderá ocorrer em diferentes níveis de sistematização,envolvendo registros pessoais, trabalhos em pequenos grupos, rodas de conversa,relatos de experiências e documentos coletivos. A memória da formação tambémserá uma responsabilidade compartilhada. Registrar o percurso significareconhecer que a experiência vivida pelo grupo possui valor histórico,pedagógico e institucional.
A expressão “cuidar de quem cuida” carrega uma dimensão profundamentepolítica. Não se trata de uma proposta individualizante, que atribui ao gestora responsabilidade exclusiva por lidar com as dificuldades decorrentes de seutrabalho. Ao contrário, cuidar de quem cuida significa reconhecer que ascondições de trabalho, as relações institucionais, os modelos de gestão e aspolíticas públicas interferem diretamente na experiência daqueles que exercemfunções de responsabilidade. O cuidado, portanto, precisa ser compreendido comodimensão coletiva e institucional. Não basta pedir aos profissionais que sejamresilientes diante de situações adversas. É necessário criar espaços dediálogo, participação, apoio, formação e construção coletiva de alternativas. Umaescola democrática não pode exigir participação, diálogo e acolhimento dosestudantes e dos trabalhadores sem produzir essas mesmas condições para seusgestores. Cuidar do gestor é também cuidar da escola. É reconhecer que aqualidade das relações estabelecidas entre os adultos da instituição repercutediretamente no ambiente educativo e nas condições de aprendizagem de crianças eadolescentes. Nesse sentido, o cuidado não é um elemento secundário da gestão.Ele constitui uma dimensão ética da própria função de educar.
Compreendemos que os desafios contemporâneos da gestão escolar exigemnovas formas de formação e acompanhamento dos profissionais responsáveis pelacondução das instituições educativas. Gestores e gestoras não são apenasadministradores de estruturas institucionais. São sujeitos que convivemdiariamente com pessoas, conflitos, expectativas, responsabilidades e afetos.Por isso, precisam também de espaços nos quais possam ser escutados, acolhidose cuidados. A proposta de formação permanente aqui defendida pressupõe aconstrução de uma cultura institucional baseada no diálogo, na participação, nacorresponsabilidade e na valorização das relações humanas.
As oficinas, os processos grupais, a reflexão sobre a prática, a produçãocoletiva de conhecimento e a avaliação permanente constituem instrumentos parafortalecer a autonomia dos gestores e ampliar sua capacidade de intervençãodemocrática. Cuidar de quem cuida significa, em última instância, reconhecerque ninguém educa ou administra sozinho. A escola é uma construção coletiva esua qualidade depende também da qualidade dos vínculos que conseguimosestabelecer entre aqueles que dela participam.
Se a paz, como nos lembra Paulo Freire, precisa ser construída pelasuperação das realidades sociais perversas e pela edificação permanente dajustiça social, a escola pode ser um dos espaços privilegiados dessaconstrução. Para isso, entretanto, é necessário cuidar daqueles e daquelas quediariamente assumem a responsabilidade de cuidar. Mais do que uma formaçãoconceitual para gestores, é preciso proporcionar experiência de gestão docuidado, cuidado das relações e cuidado dos coletivos. Uma experiência na qualformar, escutar, dialogar e transformar constituam dimensões inseparáveis deuma educação verdadeiramente democrática.